O DESAFIO DA REVOLUÇAO BOLIVARIANA

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Miguel Urbano Rodrigues

Poucas vezes na América Latina a morte de um governante carismático terá comovido tão profundamente o seu povo como a de Hugo Chávez.

Amado pelos oprimidos de todo o mundo, combatido e caluniado pelas classes dominantes, o seu funeral, acompanhado por milhões de venezuelanos, confirmou que fez história profunda. Significativamente, nele participaram dezenas de chefes de estado e de governo vindos da América Latina, da Europa, da Ásia e da Africa.

Era um obscuro oficial quando surgiu em l992 como líder de uma rebelião militar contra o governo de Carlos Andrés Pérez. A tentativa de golpe foi esmagada e cumpriu dois anos de prisão. A sua admiração por Bolivar foi então fonte de um projeto ambicioso: libertar o país da dominação imperialista e levar adiante uma revolução que, pela via institucional, fizesse do povo sujeito da História. O sonho parecia utópico porque a Venezuela era uma semicolónia dos EUA. Mas ocorreu o que os partidos da burguesia tinham por impossível. O jovem oficial mestiço, desprezado pela oligarquia, apresentou-se como candidato por um Movimento por ele criado, o V República, e venceu. O seu discurso, diferente de tudo o que se conhecia, empolgou as massas.

Eleito Presidente da República em Dezembro de1998, tomou consciência de uma realidade: a conquista da Presidência fora uma tarefa muito mais fácil do que aquela que se propunha a empreender: a transição do capitalismo dependente, hegemonizado pelos EUA, para uma Venezuela soberana, rumo a uma Revolução de contornos ainda por definir.

Dois golpes de estado, montados e financiados pelos EUA, confrontaram Chávez com crises inesperadas. O primeiro, em 2002, foi um golpe militar que contou com a participação de altas patentes das Forças Armadas. Salvo pela mobilização popular, o Presidente compreendeu que, afinal, o corpo de oficiais era permeável à ofensiva ideológica do imperialismo e da grande burguesia.

Uma segunda intentona quase paralisou o país e demonstrou que a PDVESA, a gigantesca empresa petrolífera, somente era nacional nominalmente, pois os dirigentes estavam identificados com o capital financeiro internacional.

Em ambos os golpes estiveram envolvidos militares e civis nos quais Chávez tinha confiança.

Sucessivas deserções – as mais chocantes terão sido a de Miquelena, ex ministro do Interior, e a do general Baduel – demonstraram posteriormente que muitos dos antigos companheiros não se sentiam identificados com o projeto revolucionário do Presidente.
Durante largo tempo uma questão sem resposta comprometeu o avanço do processo.

Qual o rumo da Revolução Bolivariana? A definição tardou. No terreno da ideologia era uma revolução democrática e nacional, anti-imperialista.

Chávez apercebeu-se de uma evidência: sem organização revolucionária que lhe assuma os objetivos, não há revolução que possa atingir as metas propostas.

Creio que foi em 2004, dirigindo-se a um Encontro de Intelectuais em Defesa da Humanidade, que deixou pela primeira vez implícita a opção pelo Socialismo.

A criação de um Partido da Revolução tornou-se então uma necessidade: o Partido Socialista Unido da Venezuela.

O PSUV nasceu porém numa atmosfera polémica porque no chavismo cabiam muitas tendências, algumas incompatíveis. Criado de cima para baixo, o número de filiados atingiu rapidamente um total impressionante. O êxito gerou ilusões; muitos aderentes não eram revolucionários.

O Presidente exigiu que todos os partidos que apoiavam a Revolução se dissolvessem, integrando-se no PSUV.

O Partido Comunista da Venezuela, reiterando a sua solidariedade irrestrita com a revolução e o seu líder, recusou. No momento em que muitos intelectuais do PSUV criticavam o marxismo- leninismo, considerando-o obsoleto, o PCV esclareceu que não faria sentido integrar-se num partido no qual influentes quadros atacavam princípios e valores inseparáveis do seu combate como comunistas.

Não cabe neste artigo comentar os debates então travados em torno do chamado Socialismo do Século XXI, a ideologia que, em alternativa ao socialismo científico, estava a tomar forma na Venezuela e na América Latina. Limito-me a citar o que escrevi em «odiário.info» no regresso de Caracas: – «A fórmula do Socialismo no século XXI é equívoca e enganadora. Lembra um balão vazio. O núcleo de teórico e programático não existe praticamente. O mal está no ataque aos clássicos do marxismo, desencadeado sobretudo por alguns intelectuais latino americanos. Para eles, o pensamento de Marx, Engels e Lenin, toda a obra teórica sobre o socialismo científico tornou-se uma velharia cuja superação se apresentaria como exigência da História».

POLÍTICA EXTERIOR

Com exceção dos efeitos da complexa relação com a Colômbia e os elogios a governantes liberais europeus, a política exterior de Chávez foi desde o início progressista pela firmeza e coragem que caracterizaram o choque com o imperialismo estado-unidense.

No tocante à América Latina, empenhou-se na solidariedade entre países irmãos. Foi decisiva a sua intervenção no debate que liquidou o projeto recolonizador da ALCA. A Alternativa Bolivariana para as Américas, ALBA, bem como a criação da UNASUL, do Banco do Sul, da Petrocaribe, da CELAC assinalaram avanços anti-imperialistas. Transparente foi a sua atitude internacionalista, a solidariedade permanente com governos como o do Irão que não se submetem à dominação imperial dos EUA.

A TRANSIÇÃO DIFÍCIL

Era inevitável que a decisão de romper gradualmente com o capitalismo seria fonte de grandes problemas.

Mas distorcem a realidade os media que insistem em apresentar um panorama alarmante da economia do país.

Num contexto histórico muito desfavorável, hostilizada pelos governos de Bush e Obama, a Revolução Bolivariana realizou, sob uma ofensiva permanente da oligarquia crioula, conquistas muito importantes. O que surpreende não é aquilo que não foi possível realizar; mas sim o terem conseguido tanto numa atmosfera de guerra não declarada, no contexto de uma luta de classes que somente terá precedente no Chile de Allende.

O analfabetismo, antes elevadíssimo, foi praticamente erradicado. Nas escolas públicas o ensino é gratuito. Num país onde o sector editorial era quase inexistente, o Estado distribuiu gratuitamente desde o início da Revolução dezenas de milhões de livros de autores nacionais e estrangeiros. Novas universidades foram criadas. A assistência médica é hoje gratuita.

Nessa política, as Misiones, programas sociais, desempenham um papel fundamental. A Mision Mercal atende a preços subsidiados 10 milhões de pobres em 1500 lojas do Estado. A Mision Barrio Adentro desenvolve um trabalho insubstituível no campo da saúde. Mais de vinte cinco mil médicos e enfermeiros cubanos levaram Saúde a milhões de trabalhadores que a ela não tinham acesso.

DESAFIOS

Não obstante a ofensiva contra revolucionária da oposição, agora liderada pelo milionário Henrique Capriles, a situação financeira do país está controlada. As reservas de hidrocarbonetos são das maiores do mundo.

Mas a insistência de alguns ministros e dirigentes do PSUV em apresentar a Venezuela como país em transição acelerada para o socialismo, deturpa a realidade. Com exceção do petróleo, a contribuição do sector privado para o PIB é maioritária. É ele que controla quatro quintos das importações. O Banco Central é quase autónomo. O sistema mediático é hegemonicamente controlado pela oposição.

A transição para o socialismo é, portanto, ainda incipiente num contexto em que o modo de produção, as relações de produção e as estruturas económicas continuam a ser fundamentalmente capitalistas.

CONCLUSÃO

Como definir e situar o revolucionário Hugo Chávez?

Não e fácil a resposta.

Optou pelo Socialismo, imprimindo à Revolução um rumo que poucos esperavam. Não foi um marxista, nem um socialista utópico. Nunca escondeu a força do seu sentimento cristão católico. Se ele apresenta afinidades idiossincráticas na sua trajetória de revolucionário carismático e humanista, com grandes personagens da História da América Latina, não creio que seja com Bolivar, o seu génio tutelar. Como líder de massas que fascinou os oprimidos do seu povo e por eles foi amado e compreendido, ele me faz pensar em grandes caudilhos como o uruguaio Artigas e os mexicanos Pancho Villa e Emiliano Zapata.

É imprevisível o amanhã da Venezuela Bolivariana. Mas tomam o desejo por realidade os que anunciam que a Revolução está condenada.

Como afirma o ex-ministro da Industria, Victor Alvarez, Hugo Chávez deixou como legado uma carta de navegação e um painel de instrumentos para que seja mantido o rumo.

Confrontam-se duas opções. Uma desenvolvimentista, inseparável de um modelo rentista. A outra, social, que privilegia o direito ao trabalho, a educação, a habitação, a saúde, a alimentação, a cultura.

Hugo Chávez restituiu a esperança aos seus compatriotas e aos povos da América Latina. Desaparecido fisicamente, já deu entrada no panteão dos heróis do Continente.

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