Criminalizan a Nestor Kohan

Após a sua traduçom para o nosso idioma, publicamos um artigo do intelectual marxista argentino Néstor Kohan no qual denuncia as ameaças a que está sendo submetido polo seu firme compromisso com a luita de libertaçom dos povos latino-americanos e caribenhos, e pola defesa da alternativa revolucionária à miséria do capitalismo.

Amigo da causa nacional galega e de Primeira Linha, o camarada Néstor Kohan é acusado desde diversos webs vinculados com os aparelhos de inteligência colombianos, de ser um apologista das FARC-EP.

Como se relata neste texto, os esgotos do Estado colombiano utilizam umha fotografia manipulada da sua intervençom nas XII Jornadas Independentistas Galegas, “O socialismo do século XXI a debate“, realizadas em Compostela o dia 12 de abril de 2008, para sustentar que Néstor Kohan é um “escritor-guerrilheiro”, um dos teóricos e intelectuais orgánicos da insurgência colombiana.

Como se pode comprovar, alteram parcialmente o anagrama de Primeira Linha, substituindo a estrela vermelha e o nome da nosso Partido polo logótipo das FARC-EP.

Tal e como lhe transmitimos pessoalmente, novamente desde aqui queremos manifestar a nossa solidariedade com o Néstor e denunciar a guerra suja que o Estado terrorista colombiano emprega contra todas e todos aqueles que defendem a legitimidade da luita do povo colombiano pola sua emancipaçom e libertaçom nacional.

As ameaças, a cultura e a coordenaçom repressiva

Néstor Kohan

Já nom há coordenaçom repressiva na nossa América? Acabou-se o Plano Cóndor? Dissolvêrom-se os aparelhos de inteligência vinculados ao terrorismo de estado? Os grupos de ultradireita som umha triste lembrança do passado? Vivemos numha democracia plena?

Cada quem responderá essas perguntas como queira ou como poda.

Nestas linhas limito-me a fazer públicos e denunciar factos pontuais que, por que nom o admitir?, me geram certa preocupaçom.

Na Argentina estamos acostumados à vigiláncia dos aparelhos de inteligência. Já som parte do “folclore político” doméstico. Escuitam-nos os telefones, leem-nos os e-mails, fotografam-nos as assembleias, filmam-nos nas mobilizaçons. Todo mundo o sabe. Os recentes casos, tristemente célebres, do oficial de inteligência da polícia federal Américo Balbuena, infiltrado mais dumha década na agência de notícias alternativa Rodolfo Walsh, bem como o “projeto X” de inteligência da Gendarmería sobre organizaçons populares som tam só a ponta do icebergue. É o que mal veu à tona. E todo o que nom se vê? Só alguém demasiado ingénuo ou completamente desinformado pode imaginar que isto é produto da “paranoia”.

O aparelho de inteligência e repressom do estado opera através de múltiplas vias. Pode consultar-se com proveito o livro de Gerardo Yung SIDE, La Argentina secreta (Buenos Aires, Planeta, 2006), onde aparece a descriçom do modo de operar do aparelho de inteligência argentino (dirigido e equipado diretamente pola CIA de EEUU e o MOSSAD de Israel) sobre o movimento popular, os seus militantes e os seus intelectuais. Um dos tantos departamentos da central de inteligência da Argentina está dedicado, obviamente, à informática. Utilizam tecnologia de ponta, em grande parte proveniente de Israel. Desde ali intercetam mensagens, escuitam, olham e, por que nom?, armam páginas e blogues no site.

Nesse clima político aparecêrom ultimamente umha série de páginas de Internet destinadas a contra-arrestar as agências de informaçom alternativa. Apresentam-se como geridas de maneira “amateur” por indivíduos soltos ou velhinhos reacionários. Mas pola quantidade de informaçom que manejam, o seguimento ao detalhe, dia e hora, de movimentos sociais, partidos políticos e inclusive indivíduos, seria impossível que umha ou duas pessoas pudessem mantê-las funcionando de maneira “amateur”. É evidente que há um aparelho detrás, umha organizaçom de vigiláncia coletiva que tenta operar com informaçom de inteligência sobre a opiniom pública. Quem suspeite que isto é “paranoia” que siga desfrutando da sua ingenuidade.

Numha dessas páginas, intitulada CATAPULTA, acusam-me com todos os pontos e vírgulas, incluindo fotografias da minha pessoa e capa dos meus livros, de ser um “escritor guerrilheiro” alegando como prova ter publicado um livro sobre O CAPITAL de Karl Marx e a minha participaçom durante umha década na Universidade Popular que promovêrom as Maes de Praça de Maio. Cada vez que publicam artigos ou notas sobre Néstor Kohan localizam-nas na seçom CONHECENDO O INIMIGO. Numha delas pretendem assinalar-me como “braço político das FARC” (referência à insurgência da Colômbia, hoje em diálogos de paz em Havana, Cuba) junto ao professor  de economia Jorge Beinstein, já que ambos pertencemos ao Movimento Continental Bolivariano (MCB). Veja-se http://www.catapulta.com.ar/?p=2629

Esta página da ultradireita argentina disfarça a sua tarefa incluindo “notas cor” onde acusam a Igreja do Vaticano de ser “demasiado liberal” e outras tolices similares, mas o eixo habitual das suas informaçons som, invariavelmente, o seguimento ao detalhe das atividades da esquerda e das organizaçons populares.

“Acostumado” à nossa ultradireita crioula e aos seus serviços de inteligência sempre rodeando-nos, deixei passar essas publicaçons, nom sem certa preocupaçom.

Um tempo depois de aparecer a minha fotografia na seçom “CONHECENDO O INIMIGO” de CATAPULTA, viajei ao México a um seminário internacional organizado polo Partido do Trabalho (um partido legal e institucional, com representaçom parlamentar) e ao chegar ao aeroporto de México oficiais da INTERPOL retivérom-me o passaporte e levárom-me ao seu escritório. Nom passou nada grave. Devolvêrom-me o passaporte. Para que figérom isso? Nunca o soube.

Depois fui a Santiago de Chile a apresentar a ediçom chilena do meu último livro sobre o pensamento teórico do Che Guevara e os seus cadernos de leitura marxista. No aeroporto de Santiago, à hora de selar-me os documentos, começou um extenso interrogatório sobre o conteúdo das minhas aulas, os amigos chilenos que me iriam receber, os meus contactos políticos e umha série infinita de perguntas policiais muito detalhadas. Exigiam-me dados sobre as universidades que visitaria. Saí desse interrogatório e perguntei a outros passageiros se lhes tinham feito perguntas. Ninguém que tomou o mesmo voo tinha sido interrogado.

E agora encontro-me, de pura casualidade, procurando informaçom na Internet, com umha nova e amarga “surpresa”.

Aparece umha página, claramente da inteligência colombiana (pola quantidade de informaçom e de notas diárias dedicadas à insurgência e ao movimento popular colombiano), intitulada Colombiaopina’s Blogue onde os editores publicam a seguinte nota: “CONHECER OS APOLOGISTAS DAS FARC: NESTOR KOHAN”. Veja-se: http://colombiaopina.wordpress.com/2012/12/14/conhecer-a-os-apologistas-de-as-farc-nestor-kohan/conhecer-a-os-apologistas-de-as-farc/

Ali utilizam umha fotografia minha onde estou a dar umha conferência sobre Karl Marx na Europa. Estes agentes de inteligência retocam-na e manipulam-na, ao pior estilo do stalinismo (que retocava as fotos onde Trotsky aparecia ao lado de Lenine, apagando-o), substituindo os símbolos de umha organizaçom política de Santiago de Compostela (Galiza, Estado espanhol) polo escudo das FARC-EP da Colômbia.

Fotografia original

Fotografia manipulada:

Todo mundo sabe que na Colômbia as ameaças de morte e os assassinatos políticos seletivos estivérom e estám à ordem do dia. O caso do professor Renan Vega Cantor, autor dumha grande quantidade de livros sobre história e Prémio Libertador na Venezuela, foi um dos mais recentes (até onde temos notícias). Renan Vega veu à Argentina escapando desse acosso político e essas ameaças de morte e recebeu a solidariedade de muitíssimas personalidades políticas, intelectuais, revistas, cátedras e organizaçons estudantis. Mencionamo-lo porque é o mais próximo e o mais recente do que temos memória.

Também sabemos que a classe dominante colombiana nom só tem ameaçado, assassinado e reprimido dentro do seu próprio território nacional. Nom há demasiado tempo o intelectual e dirigente político Narciso Isa Conde, também integrante do Movimento Continental Bolivariano, foi alvo dum atentado “felizmente frustrado” no seu país, República Dominicana. Como faziam os militares argentinos de Videla ou os chilenos de Pinochet, esta gente vigia, ameaça, mata e assassina inclusive para além das suas fronteiras.

Por isso deixei passar as (falsas) notas acusatórias dos serviços de inteligência de CATAPULTA. Nom dei maior importáncia às “anedotas” da INTERPOL no México e ao raríssimo e inesperado interrogatório da polícia no Chile. Mas quando me encontro agora com esta tosca manobra da inteligência militar colombiana, acho que é hora de fazê-lo público. Porque cá há uma coordenaçom repressiva. Estas “coincidências” nom som casuais. Exatamente a mesma informaçom (falsa, manipulada) e a mesma montagem começa a aparecer em forças repressivas de países diferentes.

Na acusaçom fraguada, mal-intencionada e pérfida à que fago referência, os agentes de inteligência colombianos pretendem assinalar-me como “um dos principais ideólogos das FARC neste momento”. Que delírio, meu Deus! Estes fascistas nom só som reacionários de ultradireita, ademais tenhem graves problemas mentais. Como se imaginam que alguém que vive na Argentina, a milhares de quilómetros da Colômbia, pode ser um ideólogo dumha organizaçom de outro país? Como ficárom sem os velhos contos do “comunismo que vem de Moscovo ou de Pequim”, agora inventam ideólogos … argentinos. Nom podo menos que me rir. Parece umha piada (má) de argentinos. Os argentinos nom só pugérom um Papa no Vaticano, também controlam as FARC da Colômbia. Que delirantes!

E nom só isso, acusam-me afirmando o seguinte “e desde as páginas eletrónicas da organizaçom narcoterrorista ‘atira linha’ [Néstor Kohan] sobre o que deve ser o comportamento dos terroristas no processo de Havana“. Que subestimaçom tem esta gente da insurgência colombiana! Um movimento social e político com milhares de integrantes, que há 60 anos que luita no seu país, precisaria que alguém lhe “atire linha” sobre os problemas colombianos? Nem sequer tenho dados empíricos da economia colombiana, da propriedade do seu território, do desenvolvimento da sua indústria, dos níveis do seu comércio exterior. Nom conheço nem sequer as províncias colombianas. Como “atirar linha” sem viver aí nem conhecer a fundo um país? Que delirantes!

Na sua nota macartista e fraudulenta nom poupam nada. Acusam-me de “terrorista” por ter colaborado durante muitos anos com o Movimento Sem Terra (MST) do Brasil. Quem no seu juízo perfeito pensa hoje que os camponeses brasileiros som “terroristas”? Atrás destas acusaçons nom estará a inteligência de EEUU?

Os milicos de CATAPULTA acusam-me de “terrorista” e “guerrilheiro” por ter colaborado durante uma década com as maes de praça de maio (colaboraçom absolutamente gratuita, acrescento … para evitar mal-entendidos, jamais cobrei um só peso).

Os milicos da Colômbia acusam-me de “terrorista” por ter trabalhado junto aos camponeses do Brasil e por sugerir que conseguir a paz na Colômbia é muito difícil devido ao terrorismo de estado da sua classe dominante.

Como “provas” incluem duas notas minhas, pequeníssimas. (Estes lúmpens a salário do Estado nem sequer se dérom o trabalho de ler os livros meus que eles citam como um pecado gravíssimo). Um é sobre a paz na Colômbia ‒que eles recusam, pois apostam na guerra e na soluçom militar do conflito‒ e outra é sobre uma velha biografia do escritor Arturo Alape de quem figem umha resenha bibliográfica há 15 anos.

Sobre a primeira nota, “A paz na Colômbia”, nem sequer tomara conhecimento de que a agência de notícias alternativa Anncol a tinha publicado. Tive que clicar a ligaçom dos fachas para sabê-lo … porque o original saiu numha página espanhola. Se Anncol encaminhou essa nota, que problema há? É pecado?

Sobre a segunda nota, citam um pequeníssimo texto que escrevi na década de ‘90 sobre umha biografia de Arturo Alape sobre Marulanda (boíssima, recomendo-a, foi publicada pola editorial Planeta) que um dirigente sindical argentino nos presenteara, há como 15 anos, ao meu pai e a mim. Umha biografia literária que até inclui elementos de fiçom. A biografia intitula-se Tirofijo: Los sueños y las montañas. Este texto sobre a biografia de Alape foi escrito na década de ´90 e incorporei-na ao livro Pensar a contramano. Las armas de la crítica y la crítica de las armas. Buenos Aires, Nuestra América, 2007. pp. 289-290. Como os fachas nom leem livros grossos, porque é muito trabalho, pegárom desse texto onde comparo as FARC-EP da Colômbia com o EZLN de México, traçando analogias e diferenças. Sim, também viajei ao México e participei num encontro do zapatismo (EZLN) em 1996. Que pecado mortal!

Néstor Kohan defende a rebeldia do povo colombiano! Gravíssimo! Chamem a Inquisiçom! Também defende os camponeses do Brasil e os indígenas do México e estivo muitos anos junto às maes de Praça de Maio. Poderiam ter acrescentado outros “pecados mortais”. Tivem a honra de conhecer Fidel Castro e Hugo Chávez. Também pude entrevistar a Evo Morales. Michael Löwy (brasileiro, de inspiraçom trotskista-guevarista) prologou dous livros meus. Armando Hart Dávalos (cubano, fundador do Movimento 26 de Julho junto a Fidel) prologou outro texto meu. Osvaldo Bayer (argentino e anarquista) também prologou um livro meu. E daí? Pensam identificar, marcar e ameaçar de morte todos eles? Sou amigo de muitos marxistas de Espanha, França e Itália. Pensam cruzar o mar e ir “marcá-los” ao outro lado da água?

Nas acusaçons destes militares e agentes de inteligência há só um dado verdadeiro. Fago parte do Movimento Continental Bolivariano … É verdade. E a muita honra!  É mais, acabo de escrever um livro inteiro dedicado a Simón Bolívar y nuestra independencia (Una lectura latinoamericana) . Está mal? Tanto medo tenhem ao fantasma de Simón Bolívar?

Como parte do Movimento Continental Bolivariano compartilhamos um montom de aulas e seminários de estudo com a bandeira de Simón Bolívar detrás nossa (e do Che Guevara, já que a nossa Cátedra de Formaçom Política leva o seu nome). Aulas onde participárom muitos jovens estudantes, trabalhadores de fábricas recuperadas, piqueteiros, e militantes populares compartilhando o conhecimento com professores, escritores, intelectuais e pensadores como Osvaldo Bayer, Vicente Zito Lema, Atilio Boron, Jorge Beinstein, Claudio Katz, o embaixador de Palestina na Argentina e vários dirigentes piqueteiros. Também participárom professores brasileiros, uruguaios, bolivianos, cubanos, venezuelanos e chilenos. As fotografias dessas aulas e debates com estes professores e intelectuais estám na Internet. Nunca as ocultamos. Todas aulas públicas! Pensam “marcá-los” e calá-los a todos?

Para além do pessoal, quero fazer umha reflexom mínima sobre as perguntas do começo. Desapareceu o Plano Cóndor? Já nom há coordenaçom repressiva a escala continental? Os serviços de inteligência e os aparelhos de “segurança” (que palavra enganosa…) nom passam informaçom, nom coordenam a vigilância, nom articulam o seguimento e a repressom?

As suas conceçons, que lamentavelmente non ficárom enclausuradas no passado, continuam operando com objetivos precisos:

(1) Aniquilar pola força todo movimento social rebelde, desde os tímidos movimentos urbanos e rurais que só se proponhem reformas pontuais, até a insurgência. TODOS SOM INIMIGOS. Para eles todos som “terroristas”.

(2) Isolar os rebeldes: o famoso “tirar a água ao peixe” que na década de ´60 promovêrom os franceses na Argélia e os norte-americanos no Vietname, doutrinas que depois se aplicárom com todo rigor na nossa América. Que os rebeldes fiquem sozinhos, isolados, sem que ninguém opine, sem que ninguém fale, sem que ninguém veja nada.

(3) Bater a cultura da rebeldia e o pensamento crítico, considerados como “núcleo central do adoutrinamento subversivo-terrorista” (segundo o teórico militar argentino Osiris G. Villegas: Guerra revolucionaria comunista [Buenos Aires, Pleamar, 1963; primeira ediçom da Biblioteca del Oficial del Círculo Militar Argentino, 1962]). A cultura é o gérmen das revoluçons? por isso nesse espaço há que vigiar, amedrontar, bater e se for possível, aniquilar.

(4)  Demonizar, satanizar e gerar TERROR entre a juventude, o estudantado, a intelectualidade, os jornalistas, as advogadas, os professores e as professoras. Que ninguém fale! Que os escritores nom se animem a escrever! Que ninguém pesquise nada! Que os livros nom circulem nem se leiam!

(5) Sentar as bases dos futuros assassinatos seletivos. Na Colômbia venhem-no fazendo desde há décadas. A Triplo A argentina (Aliança Anticomunista Argentina) começou igual, assinalando futuras vítimas. Ameaçando. “Identificando”. Marcando.

Nom quero ser pessimista. Tenho vontades, tenho desejos que as cousas mudem. Nom gosto da cultura “dark” nem fago o culto da melancolia. Mas também nom sou ingénuo.

Nom acho que os aparelhos de repressom deste continente se tenham transformado em doces monginhas ou inocentes carmelitas descalças. Na Argentina, de maneiras “democráticas” desapareceu Julio Lopez, testemunha contra os assassinos militares. Até o dia de hoje … “ninguém sabe nada”.

Nom creio no sorriso hipócrita do presidente Obama. Quanto mais sorri, mais golpes de estado há. Que passou em Honduras? E em Paraguai? Desmantelárom-se as novas bases militares estadounidenses na Colômbia? Nom, nom acredito no Obama. É um loiro disfarçado de afrodescendente. É mais do mesmo. O seu multiculturalismo é umha mercadoria de shopping que nada tem a ver com o totalitarismo do seu american way of life que nos pretende impor de mil maneiras, a cada dia mais subtis, vigiláncia, controlo e repressom incluída.

Nom acredito no presidente Santos nem no ex-presidente Uribe. Parece que entre eles estám brigados. A página de inteligência militar que me “marca”, me assinala e ameaça, critica Santos, seguramente a favor de Uribe. Nom conheço essa política interna da Colômbia nem me interessa. Os nazis também brigavam entre eles mas à hora de matar, assassinavam todos juntos.

Quando me encontro ante estas publicaçons ameaçantes lembro alguns velhos, queridos e admirados desde a minha adolescência.

Jean-Paul Sartre, por exemplo, no meio da histéria colonialista francesa e europeia, animou-se a defender os direitos à rebeldia e à insurgencia do povo de Argélia. Nom eram demónios, tinham direitos, dixo Sartre fumando a sua pipa. Nom mereciam ser torturados, violados, assassinados. Sartre pujo-se na contramao a todo mundo, mas continuou defendendo os rebeldes. E fijo bem!

Bertrand Russell, velhinho, arrugado, completamente grisalho, admirador de Leibniz, amante da matemática e a lógica simbólica, sobrepujo-se às ameaças e nom deixou um minuto de condenar a injusta guerra do Vietname. Mesmo o metêrom preso, mas seguiu exercendo a solidariedade com a gente humilde e os povos rebeldes, brutalmente queimados e arrasados polo NAPALM dos marines norte-americanos.

Eric Hobsbawm, velhinho judeu rodeado da fleuma e a neblina inglesa, ao falar da insurgência colombiana e o povo de Marulanda, nom duvidou em escrever que “Na Colômbia vive-se a mobilizaçom camponesa maior de todo o hemisfério ocidental”. Nom os nomeava como “terroristas” senom como camponeses mobilizados.

Noam Chomsky, neurótico obsessivo fascinado polas estruturas da linguagem e as formas de racionalidade humana, escreveu no seu livro Estados canalhas: o império da força nos assuntos mundiais (Rogue States: The Rule of Force in World Affairs, Cambridge, South End Press, 2000) que a insurgência colombiana nom constitui umha banda de delinquentes, sequestradores, bandoleiros e foragidos e, menos que nada, umha “narcoguerrilha terrorista” sem ideologia. Também o vám marcar e identificar como “apologista das FARC”? Também o vám ameaçar? Vám-no ir fotografar até a sua casa nos Estados Unidos?

Ao saber que estes milicos, polícias e aparelhos de inteligência me assinalam com nome, apelido e fotografias, custa-me dormir. Mentiria se dixesse que nom tenho medo. Seria umha fanfarronada tonta. Só alguém delirante pode nom aferrar-se ao princípio de realidade. Se querem gerar medo, conseguem-no. A questom é que fazemos nós com os nossos medos. Submetemo-nos? Anulamo-nos como sujeitos? Deixamos de ser quem somos? Deixamos de escrever? Abandonamos as aulas de formaçom política? Calamos a boca em frente à longa mao do terrorismo de estado?

Max Horkheimer dizia “A lealdade à filosofia significa nom permitir que o medo diminua a nossa capacidade de pensar”. E tem razom. Ainda hoje tem razom. Hegel, outro gigante do pensamento, na sua Fenomenologia do espírito escreveu que “Só se se pom em jogo a vida, se conserva a liberdade”. E o nosso querido Rodolfo Walsh fechava a sua carta aos sebentos assassinos, terroristas de estado: “sem esperança de ser escuitado, com a certeza de ser perseguido, mas fiel ao compromisso que assumim há muito tempo de dar depoimento em momentos difíceis”. Pola mesma época de Rodolfo Walsh, em plena ditadura militar de Videla, o meu pai foi ameaçado de morte, tivo que ir da casa e andar escondido. Nunca deixou de ser quem era. Nom pudérom com ele.

De jeito que nom deixaremos de fazer o que fazemos. Seguiremos estudando e escrevendo, continuaremos com as aulas itinerantes de formaçom política, nom deixaremos de pesquisar nem de denunciar os crimes do terrorismo de estado.

Buenos Aires, 24 de maio de 2013

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